Trepadeiras e ervas daninhas

Fotografia minha, Montachique
Passo por elas na estrada. Ao caminhar simplesmente, nunca me passam ao lado, ainda que as deixe para trás após passar-lhes na frente. Casas hoje sós, com janelas entaipadas ou simplesmente esventradas pelas ervas e arbustos que as tomaram de assalto. Casas mais humildes ou que aparentam ter sido paços, quintas, nos seus tempos áureos, em cujos campanários sinos imóveis, talvez carcomidos pelo tempo, nos miram sem se expressar. Casas cujos corpos, descompostos, lembram igualmente a ruína humana, quando o tempo lhes passa por cima, as atravessa, podendo contorná-las, passar-lhes ao lado.
Casas que um dia tiveram gente, vozes, risos. Assistiram à vinda ao mundo de alguns, à despedida de outros, fosse com uma mala na mão, ou encasquetados a caminho da última morada.
Casas tão parecidas com as pessoas que as habitam, as passantes, que as olham interrogativas quando passam na estrada, ou caminham fortuitamente o seu chão.
Quanto de nós ainda pulsa e quanto, sem reparar, por incúria ou falta de estímulos, começa lentamente a "degradar-se" até quase ruir, fazendo de nós, em tempos casa e o lar de alguém, sítios sós, onde só o silêncio mora?
Por quantos de nós trepam heras, glicínias, buganvílias... que ao olhar desavisado seduzem mas tolhem, ensombram e se apossam do agora oco, antes completamente preenchido de equilíbrio e felicidade?
Idéia que me apresso a afastar, por dolente e quase insuportável, ao olhar para o lado, outros. Quiçá nunca querer vesti-la, por não me assentar sem luta.
Mas que luta pode travar-se, com que armas, quando o tempo teima e leva a melhor?
Serão as casas, por inertes, diferentes da gente que as constrói, habita, mas também abandona? Quando dentro delas e por dentro, se deixa lentamente degradar.

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