Quando o vento sopra

 


 



Cedo despontou em mim o "vício" da escrita. Tecia contos fantásticos no meu quarto ao crepúsculo, na companhia do candeeiro com "abat-jour" cor-de-rosa, adornado de pequenos folhos na base, nada condizente com o profundo suspense, a sobrenaturalidade com laivos de negridão.
Havia o romance. Desencontrado, confuso, um provável apego pouco são, ou a afeição abnegada sem eco no outro que a desilusão transformava em veneno pouco a pouco. Casas apalaçadas sobre falésias onde a voz do mar, rugindo em conluio com a tenebrosa solidão, enlouquecia. 
Seres celestiais em combate com as forças das trevas para resgatar uma alma que podia significar a redenção da Humanidade.
Havia sempre um papel, grande, pequeno. Uma folha de caderno ou guardanapo de refeitório. O simples post-it com letras encavalitadas, frente e verso, com pequenas setas indicando a ordem e o ritmo da "narrativa". 
Acompanhou-me sempre a escrita. No banco da escola, progredindo comigo. No trabalho e até no altar, depois; mesmo na maternidade, sempre estiveram lá. 
Enraizou-se a mania de poder guardá-las numa estante com o meu nome gravado e não apenas na gaveta, anónimas. E lamento tanta coisa que, furiosa ou meio descrente do que conseguia, atirei para o lixo. De modo que, assim que realizei esse sonho pareço ter sido tomada por um frenesim que não me descreve nem assenta bem, escrevendo qual louca como se o mundo acabasse.
Vivenciaria levemente um "género de glória" plástica que, longe de se me ajustar igualmente, acabei por renegar. Mas não parei! 
Porque escrever assenta-me melhor do que a idade que vou tendo, sendo o número presente sempre tão distante da idade que me está dentro. Porque escrever é respirar, escrevo como respiro. Escrever é viajar, ser outra e mais. Sem arredar pé, percorrer a galáxia. Tocar o Sol sem represálias.
Contudo, não mais acondicionei na estante títulos que assinasse. Embora o contagiante vício da escrita persista e a vontade de, como em tempos, esgrimir um livro, para que ele me recorde, se imponha, percebo que as histórias estão lá. Faço-as.
Porém, não mexo um dedo para as compilar sob uma chancela. E, se assim continuar, tudo o vento levará consigo. Não que não ser nada me importe. Queria, isso sim, estar-lhe presente indelével na memória. Mas...
Talvez não sejam precisas letras impressas para tal.






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