Esboço triste
Sou um quadro triste, pendurado e quieto no centro do tecto.
Não! Não sou um fresco de mestre pintor.
Não tenho moldura de madeira. Rendilhado de gesso envolve-a ao redor.
Apenas duas lágrimas, que escorrem,
qual pérola, de um coto de vela,
Dum candeeiro apagado,
Ao tecto pregado.
Sou um esboço do passado, meio acabado,
Quase inatingível e já imperceptível,
Pela humidade e o tempo.
Sou o lamento do vento numa sala enorme e pouco mobilada.
Onde a janela está, também ela esburacada...
algo carcomida
pelo bicho e os azares da vida.
Sou a mancha no soalho, a infiltração evidente.
Da lágrima que brota de onde não se nota, pudesse haver gente.
A imagem que alguém um dia quis imprimir...
Para longe, a esconder dos olhos que admiram.
Mas não suportariam.
Que numa parede, tal rosto sombrio.
Se pudesse exibir.


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